Corredores
Ando pelos corredores desse lugar desértico, ouvindo
tão somente o som dos meus passos ecoando atrás de mim.Às vezes penso que meus passos não são o suficiente.Às vezes grito, só para quebrar o silêncio.Não sei por quanto tempo eu estou preso aqui. Semanas,
talvez, ou meses. Mas eu estou aqui tempo o suficiente para saber que estou
sozinho.No mais, sozinho, e é isso.Eu prefiro ficar sozinho, considerando as
alternativas.Figuras se materializando na frente dos meus olhos.
Criaturas pequenas, feias e apertadas em um corpo baixo, com cabeças
deformadas. E eles tentam vir até a mim, eles insinuam suas vozes entulhando
minha mente, me levando a um ponto de quase loucura, vozes agudas, quebradas,
arranhadas, enlouquecedoras. Eu quero correr, mas suas vozes me mantêm parado,
sem chances de me mover, e se passa uma eternidade até eu conseguir me mexer de
novo.Uma vez, quando tentei fugir de uma das criaturas,
eu olhei pra trás. Preferia não ter feito isso.A coisa estava acenando, selvagem e horripilante, e
eu fiquei observando enquanto ele sumia, se tornava nada. Eu evito os
corredores agora.Eu costumava ficar confortável com o fato de que
poderia sair desse lugar se eu quisesse. Fora dessas paredes existe um campo
verde, cercado por colinas batidas, colinas que eu tentei subir tantas vezes e
falhei, só escorregando de volta a esse lugar perpetuamente ensolarado. É
sempre um dia perfeito aqui no campo, apesar do sol insistir em não refletir a
pequena e limpa fonte em uma das extremidades. Eu conseguia alguma alegria
olhando as borboletas que ficavam perto das árvores.Então veio o momento que eu tentei pegar uma.Eu juntei minhas mãos e gentilmente aproximei de um
dos insetos coloridos. Senti nada na minha palma. Então, pensei que a borboleta
houvesse escapado de meu alcance, tentei de novo.Eu vi a borboleta atravessar minha mão.Nada vivo e benevolente habita aqui.Eu desisti desse campo.Em vez disso, me virei para os quadros. Eles se
enfileiram em praticamente todo corredor de cada sala aqui, e eu descobri algo
memorável sobre eles.Eles levam a outros mundos.Mau encosto na superfície de algum e ele já me leva
a algum lugar novo, algum lugar estranho. Algum lugar vazio. Quase toda
criatura que encontrei nesses mundos tentou me matar. Outras pediam favores, e
uma vez que os realizava, não era mais útil a eles, e só era ignorado.Essa é minha vida, meu mundo. Ainda há algo em que
mantenho a esperança.Os mundos nessas pinturas são os lares desses
objetos angulares, pontiagudos e brilhantes. Não consigo descrever porque, mas
eles são muito importantes pra mim. Estão escondidos nos lugares mais
estranhos, e apesar dos mais funestos obstáculos me separarem deles, eu
continuo procurando-os. De fato, já morri fazendo isso.Um desses objetos se encontrava em um abismo, e
quando eu cheguei a ele por uma plataforma estreita, naturalmente o vento me
derrubou. Cai por tempo o suficiente pra pensar se valia a pena ou não
continuar vivendo nesse inferno, ou se não seria melhor morrer.Não me lembro de atingir o solo, mas lembro de
acordar no campo.Morte não é mais uma opção.Desde aquele dia, tenho concentrado todas minhas
energias em coletar esses objetos pontudos e brilhantes. E agora eu me sinto...
Diferente, de algum modo. Desde que eu tenho encontrado esses objetos, sinto
como se houvesse algo que eu deva fazer. E eu finalmente descobri o que é.
Nenhum comentário:
Postar um comentário