O homem que só tinha certezas quase nunca usava ponto de
interrogação, e em seu vocabulário não constavam as expressões: talvez, quiçá,
quem sabe, porventura.
Parece que foi de nascença. Ele já teria vindo ao mundo
assim, com todas as certezas junto, pulou a fase dos por quês e nunca soube o
que era curiosidade na vida. Na escola, era uma sensação. Mas não ligava muito
pra isso não. E cresceu achando muito natural viver derramando afirmações pela
boca. Tinha resposta pra tudo, o homem que só tinha certezas.
Para cada pergunta havia uma só resposta certa e era essa
que ele dava, invariavelmente, exterminando aos pouquinhos todas as dúvidas que
existiam, até que só restou uma dúvida no mundo: será que ele não vai errar
nunca? Mas ele nunca errava, e já nem havia mais o que errar, uma vez que não
havia mais dúvidas.
Num mundo que só tinha certezas, o homem que só tinha
certezas virou apenas mais um homem no mundo. Melhor assim, ele pensava, ou
melhor, tinha certeza.
- Para uma pessoa que me surpreende a cada dia, com toda certeza em suas razões próprias.
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